Área de Atuação do Cirurgião Bucomaxilofacial

Fonte da imagem: http://fctbmf.blogspot.com.br/

Nós, dentistas, vivemos situação ímpar: embora a profissão tenha crescido muito nas últimas décadas, julgo que ainda não obtivemos o reconhecimento e importância necessária. Quem nunca ouviu a famosa assertiva: dentista "só arranca dentinho"!? Quem ainda pensa assim, realmente é leigo em anatomia, formato de raízes dentárias, proximidade de elementos dentários com estruturas nobres como artérias, veias, vasos linfáticos e seio maxilar, ou mesmo complicações maiores como infecções vasculares causadas por abscessos odontogênicos, podendo causar endocardites bacterianas graves (infecção cardíaca) evoluindo para o óbito. Sim,tudo isto está relacionado com um "dentinho".

Todo este desabafo tem um motivo: a área de atuação do cirurgião bucomaxilofacial é um pouco mais ampla dentro da odontologia, compreendendo aspectos que muitas vezes fogem do entendimento do leigo ou mesmo dos colegas médicos. Esta semana fiquei sabendo do comentário de um colega médico a um paciente em comum. Segundo o entendimento do colega, fratura de face "não é para dentista". Ao mesmo tempo em que a falta de reconhencimento nos deixa chateados, também nos sentimos na obrigação de esclarecer certos aspectos da especialidade:

Um cirurgião Bucomaxilofacial fez a faculdade de odontologia durante cinco anos, e depois uma residência médica em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, no meu caso durante mais de dois anos, com mais de 2.700 horas, em regime de internato, envolvendo plantões hospitalares em pronto-socorro, rotina hospitalar, cirurgias complexas com anestesia geral e todo o envolvimento que um hospital de grande porte proporciona envolvendo as várias especialidades. Em alguns casos, o estudo é complementado com mais alguns cursos. No meu caso, duas atualizações, uma extensão universitária, inúmeros cursos e congressos na área e estágio no exterior.

A portaria do Conselho Federal de Odontologia CFO-54, de 2 de novembro de 1975, em seus artigos 1º, 2º e 3º, rege que:

Art.1o. - Para fins de registro de títulos no Conselho Federal de Odontologia e inscrição dos profissionais nos Conselhos Regionais de Odontologia, fica regulamentada, na forma que dispõe esta Portaria, a especialidade Cirurgia e Traumatologia Buco-maxilo-facial, a que se refere a alínea "a", do artigo 3o. da Resolução CFO-90, de 14.06.75.

Art. 2º - A Cirurgia e Traumatologia Buco-maxilo-facial é a especialidade que tem como objetivo o diagnóstico e os tratamentos, cirúrgico e coadjuvante, das doenças, traumatismos, lesões e anomalias congênitas ou adquiridas do aparelho mastigatório e anexos e estruturas craniofaciais associadas,

Art. 3º. As áreas de competência para atuação do especialista em Cirurgia e Traumatologia Buco-maxilo-facial , definidas no artigo 2º, incluem:

anestesiologia, onde o especialista deverá possuir conhecimentos para prescrever anestesia e operar o paciente sob anestesia geral;


biópsia de lesões;

tratamento de infecções;

erupção cirúrgica, reimplantação e transplantes de dentes;

cirurgia pré-protética;

cirurgia pré e pós-ortodôntica;

cirurgia ortognática;

tratamento cirúrgico dos cistos; de doenças das glândulas salivares; das doenças de articulação temporomandibular, de lesões de origem traumática na área buco-maxilo-facial; de más formações congênitas ou adquiridas, dos maxilares e mandíbula, dos tumores benignos da cavidade bucal; dos tumores malignos da cavidade bucal, atuando integrado em grupo de cancerologistas; de distúrbios neurológicos, com manifestação maxilo-facial, em colaboração com neurologista ou neurocirurgião; e, das afecções radiculares e perirradiculares;


remoção cirúrgica de corpos estranhos;

Parágrafo único. Para inscrição na especialidade, o cirurgião-dentista deverá ter necessariamente o conhecimento de todas as áreas de competência definidas neste artigo, podendo, porém, haver preponderância de conhecimento e de atuação em uma ou mais áreas.

Art. 4º. Nos casos dos acidentes cirúrgicos que acarretam perigo de vida ao paciente, o cirurgião-dentista poderá lançar mão de todos os meios possíveis para salvá-lo.



O colega Robson resende, da ABO/ES, entende, com muita propriedade, que:


Mesmo a Cirurgia e Trauma­tologia Bucoma­xilofaciais sendo a especialidade da Odontologia mais bem estabelecida dentro dos hospitais, o especialista ainda enfrenta algumas dificuldades para atuar nesta área. As principais dificuldades que os CDs encontram neste ambiente são "o difícil relacionamento profissional com os médicos, a falta de compromisso dos planos de saúde em atendê-los e o pequeno investimento do próprio governo frente a esses profissionais". Para ele, o governo valoriza pouco estes profissionais ao oferecer, por exemplo, salários mais baixos que de médicos com a mesma carga horária, ou abrir menos vagas que a maioria das especialidades médicas.




Apesar destes obstáculos, as atribuições específicas do cirurgião bucomaxilofacial, independentes das dos médicos de especialidades afins, assim como a necessidade de sua atuação acontecer em ambiente hospitalar, estão bem definidas e embasadas. "É clara a atuação do especialista em CTBMF nos hospitais, já que um grande número de cirurgias desenvolvidas nessa especialidade possui um grau de complexidade que exige sua realização neste ambiente", explica Re­zende.



Silva explica que, embora as atribuições e limitações de cada profissional envolvido estejam claras, os conflitos de interesses, de ordem profissional, institu­cional e até de mercado, são provocados pela proximidade entre as áreas em que atuam os diferentes especialistas. O conselheiro ainda conta que as resoluções do CFO (nº. 003/99) e do Conselho Federal de Medicina (CFM - nº. 1536/98) que discorrem sobre lesões de interesse comum entre o cirurgião buco­maxilofacial e o médico, foi mal interpretada, gerando conflitos entre as profissões. "Esse desentendimento foi resolvido recentemente, através da Câmara Técnica CFO-CFM, e a resolução definida em conjunto será reedi­tada." A Câmara Técnica, na qual Silva representa o CFO, foi criada para melhorar o entendimento e as relações entre as duas classes. Dela também fazem parte o Colégio Brasileiro de Cirurgia e Trau­matologia Buco­maxilo­fa­cial e a Sociedade Brasileira de Cirurgia e Trauma­to­lo­gia Buco­ma­xilofacial (Sobra­cibu).

Edela Puricelli também lembra que ainda é muito forte nas instituições e na sociedade a cultura de que cirurgia e hospital estão relacionados somente a médicos, prejudicando a Odontologia. "A presença do cirurgião-dentista nos hospitais ainda é incipiente, necessitando de muito trabalho para a sua aceitação e inserção no corpo clínico ou nos processos administrativos e assistenciais." A especialista cita como exemplo disso o fato da Odontologia não ser "estampada" nos espaços das instituições hospitalares e a própria classe aceita a substituição de termos como Serviços de Odontologia por Serviços de Medicina Bucal. "A visibilidade que a Odontologia precisa acaba soterrada, ao final de tudo, por uma designação de Medicina", ressalta Edela.


Nos dias de hoje, atuamos fortemente na especialidade, precisando inclusive, com relativa frequencia, intervir em pacientes de colegas médicos no pós-operatório de urgência em pronto-socorro, como já aconteceu inúmeras vezes comigo, inclusive em casos de hemorragia de pacientes operados por colega médico. Razão pela qual é de se estranhar comentários desta natureza.

Assim, fica claro que "a cirurgia bucomaxilofacial, nas suas diferentes áreas, pode ser exercida pelos dois profissionais desde que, além de seu diploma de médico ou de cirurgião-dentista, tenha-se capacitado para tal".

Depois do desabafo, esta semana ainda postarei mais um pouco sobre nosso trabalho...um caso bem interessante...aguardem!!! Abraços a todos!!!

20 comentários:

  1. Olá, o meu nome é Vitória. Sou de São Paulo e encontrei o seu blog entre as minhas pesquisas a respeito da traumatologia bucomaxilofacial. Eu queria saber como anda o mercado de trabalho nessa área,e o salario.
    Obrigada pela atenção =)

    ResponderExcluir
  2. Olá Vitória.
    Tua pergunta é um pouco dificil de responder, já que é um assunto muito subjetivo. O que posso te dizer é que a especialidade vem crescendo muito nos ultimos anos, especialmente no interior, proporcionando uma ampla atuação hospitalar, ainda de serviço publico e consultorio. O que costumo dizer é que quem se dedica e é bom no que faz, sempre terá mercado de trabalho. E assim também é em relação à remuneração. Não busque tua felicidade pensando na recompensa financeira. Ela virá como consequencia! Obrigado por nos acompanhar e siga conosco!

    ResponderExcluir
  3. Nada a ver essa do médico também poder atuar. Eles querem tudo para eles. Eles iam ter um ataque, se a gente se por exemplo a gente também se capacitasse e fosse atender na otorrino.

    ResponderExcluir
  4. Fernando, eu vejo a questão como um pouco mais complexa. Não vejo impedimento para um médico operar ortognática, por exemplo, desde que se capacite para tal, com noções de oclusão, movimentação muscular, imobilização pós-operatória e recidivas, para ficar nas mais comuns - o qque geralmente não acontece. O que não pode é o médico acusar outro profissional - que estudou, se especializou e tem experiencia - simplesmente por não ser médico.

    ResponderExcluir
  5. Ola, Meu nome e Marcelo e sou Buco-maxilo-facial, e ultimamente tive um caso onde um anestesista se recusou de realizar a anestesia alegando que deveria ter um medico responsável na sala,. Eu achei absurdo a ignorância do medico, enfim a cirurgia foi cancelada, e entrei com uma reclamação junto ao ministério publico, onde esta em andamento. Vc poderia me dizer onde encontro a lei referente a nossa atuação?
    Abraços

    ResponderExcluir
  6. Marcelo, isto é um verdadeiro absurdo, e inadmissível que ainda aconteça. De que cidade você é? Penso que voce deva denunciar não somente ao MP, mas também ao conselho médico, CFO, CRO e colégio brasileiro de cirurgia. E ainda responsabilizar este médico criminalmente por privar o paciente do procedimento.

    A resolução CFO 003/99 diz, no seu artigo 3º, "O cirurgião-dentista, quando da solicitação para realização de anestesia geral em regime hospitalar, deve seguir a orientação da Resolução CFM no. 1.363/93 que dispõe sobre condições de segurança em ambiente cirúrgico bem como de acordo com o artigo 44 da Consolidação das Normas para Procedimentos nos Conselhos de Odontologia, aprovada pela Resolução CF)-185/93" e no seu artigo 6º "O cirurgião-dentista é responsável direto pelo seu paciente quando da internação hospitalar."

    Se este médico não reconhece que o seu próprio conselho assim determina, merece ser responsabilizado.

    Você também pode encontrar na coluna esquerda do blog alguns links sobre legislação que podem ser uteis. Mas não desista, vá até o fim.

    ResponderExcluir
  7. Gostei muito da materia! e do site ,enfim,acabo de ser aprovado no vestibular para odontologia! muito feliz... e me preparando para os desafios da profissão.abraço luanderson olliveira.

    ResponderExcluir
  8. olaria gostaria de saber a aceitação feminina nesta área tem restrições ?

    ResponderExcluir
  9. Olá. Hoje a aceitação feminina na especialidade é uma realidade, embora a cirurgia de face, equivocadamente, seja associada à força física, talvez daí certo preconceito. Mas temos excelentes cirurgiãs espalhadas pelo país e o fato de ser mulher não é nenhum impeditivo.

    ResponderExcluir
  10. Olá amigo, sou acadêmico de Odontologia e pretendo seguir a carreira cirúrgica. Já ouvi falar que é preciso que um médico assinei um termo se responsabilizando pela cirurgia. Isso procede? Abs Exelente Blog Parabéns.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá amigo.

      "A resolução CFO 003/99 diz, no seu artigo 3º, "O cirurgião-dentista, quando da solicitação para realização de anestesia geral em regime hospitalar, deve seguir a orientação da Resolução CFM no. 1.363/93 que dispõe sobre condições de segurança em ambiente cirúrgico bem como de acordo com o artigo 44 da Consolidação das Normas para Procedimentos nos Conselhos de Odontologia, aprovada pela Resolução CF)-185/93" e no seu artigo 6º "O cirurgião-dentista é responsável direto pelo seu paciente quando da internação hospitalar."

      Ou seja, o cirurgião-dentista que interna o paciente, e é o cirurgião principal naquele caso, é totalmente responsável pelos seus atos, sendo portanto, absurda a colocação de que o procedimento deve ser assinado por um médico!

      Excluir
  11. adorei o blog...sou estudante de odontologia da ufpb. thiago

    ResponderExcluir
  12. juliana silva19 setembro, 2013

    boa tarde, estou prestando vestibular para odontologia esteano, e gostaria de me fazer residencia em buco-maxilo...porem fico apreensiva com o mercado de trabalho...nao encontro muitas informaçoes a respeito da atuação destes profissionais....se pudesse me esclarecer agradeceria.....gostaria de saber tambem sobre o mercado de trabalho atual e remuneração!
    agradeço desde ja a atenção!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Juliana, como vc pode perceber pelo post, o bucomaxilo tem forte atuação na área hospitalar, seja em traumas de face, ortognáticas, ou tratamento cirurgico de pacientes comprometidos sistemicamente, embora ainda enfrentemos forte e preconceituosa reserva dos médicos. O mercado de trabalho é excelente, desde que não seja nos grandes centros, onde normalmente já existem equipes que monopolizam os serviços. Quanto à sua pergunta sobre remuneração, sugiro não pensar em que tipo de área atuará de olho na remuneração: isso é a chave para o fracasso. Faça o trabalho bem feito, com competencia, ética e amor, que não faltará trabalho e vc será muito bem recompensada, pode acreditar!

      Excluir
  13. Olá, meu nome é Wellinton, e sou estudante de graduação em odontologia, pretendo ser um cirurgião bucomaxilofacial, e queria saber quanto vc ganha por mês, e quanto é o piso salarial do bucomaxilofacial no SUS.
    Obg,
    Agradeço desde já!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Wellinton. Permita-me te dar um conselho de 11 anos de profissão: VOCÊ ESTÁ COMEÇANDO ERRADO. E isto não aplica-se apenas à nossa profissão. Se você está se formando pensando em quanto vai ganhar, uma coisa é certa: você não vai ganhar tão bem quanto gostaria. Foque em ser um bom profissional, correto, ético e diferenciado, que a recompensa virá. Mas isso é só um bônus. O objetivo é trabalhar com PRAZER. Pense nisso!

      Excluir
  14. Boa noite, vou iniciar o curso de odontologia, nesse semestre. A especialidade em cirurgia bucomaxilofacial tem me interessado muito, entretanto, tenho dúvidas quanto às restrições dentro da área

    ResponderExcluir
  15. Olá, sou o Pedro, vou iniciar o curso de odontologia e também tenho essa dúvida, a partir de quais casos dentro da traumatologia e da cirurgia que o bucomaxilofacial não pode mais atuar?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pedro, legalmente, dentro da área que compreende osso frontal e osso hioide, o bucomaxilo não tem limitação de atuação nenhuma.

      Excluir

Seu comentário, sugestão, crítica ou sugestão é muito importante: